Em 2014, uma reportagem do respeitado jornal americano The New York Timesrevelou que chineses estavam contrabandeando um produto muito valioso do Peru. Não se tratava de ouro nem de pedras preciosas. O tesouro que gerou a tensão toda era um… alimento. Batizada de maca, a raiz tem ligação tão estreita com a cultura e com o orgulho do povo andino que uma lei nacional proíbe, pelo menos em teoria, que ela seja processada fora do seu território.

Hoje, no entanto, a planta é massivamente cultivada na China, onde faz enorme sucesso. Mas no mundo todo, incluindo o Brasil, há um certo frenesi em torno dela – fenômeno curioso, visto que a maca é cultivada no Peru desde antes mesmo de os incas formarem seu império. O pontapé inicial da popularização do alimento provavelmente tem a ver com uma característica alardeada há tempos: seu poder de aumentar a libido e a fertilidade.

“Por tudo que já se sabe sobre sua influência na função hormonal, é um alimento que merece destaque”, elogia a nutricionista clínica Gabriela Soares Maia, do Rio de Janeiro. Em resumo, a raiz auxiliaria no equilíbrio entre hormôniosimportantes, como testosterona, estrogênio e progesterona. Tanto é que há enorme interesse em relação aos efeitos da maca na fase da menopausa, quando os níveis de estrogênio despencam.

Parece, contudo, que as vantagens do vegetal andino nesse período não têm a ver obrigatoriamente com os hormônios. Recentemente, cientistas da Universidade Victoria, na Austrália, testaram a raiz em 29 chinesas na pós-menopausa. Verificaram que consumir 3,3 gramas do ingrediente por dia não promoveu mudanças hormonais importantes. Porém, as voluntárias apresentaram redução nos sintomas de depressão e melhoras nos níveis de pressão arterial.

Não é a primeira vez que o pessoal dessa instituição avalia o impacto da raiz nesse público. Em 2008, constatou-se por lá que o alimento diminuiu problemas como ansiedade e, de novo, sinais depressivos em 14 mulheres na pós-menopausa.

Para além das questões emocionais, a maca teria outro papel bacana nessa etapa da vida: auxiliar na manutenção dos ossos, que sofrem com a falta de estrogênio, seu protetor natural. “A raiz possui cálcio e magnésio, minerais essenciais para a composição do esqueleto”, explica a nutricionista Flávia Morais, da rede Mundo Verde. Segundo a pesquisadora Carla Gonzales, da Universidade Peruana Cayetano Heredia, o alimento seria capaz até de recuperar a massa óssea perdida especificamente pelo déficit hormonal.

Boa para todo mundo

Ficou com a impressão de que as mulheres são as mais agraciadas com a presença da maca na rotina? Nada disso. Em diversos estudos (inclusive um feito na UFTPR), o tubérculo demonstrou seu caráter antioxidante. Ou seja, ele dificulta a formação de radicais livres, moléculas que dão sua contribuição para diversos problemas, como Alzheimer, doenças cardíacas e até câncer.

Tanto é que, em estudo peruano com pessoas de 40 a 75 anos, o consumo da raiz foi associado a um envelhecimento mais saudável. “Para as agências regulatórias do Brasil, a maca é vista como um vegetal fonte de fibras e de nutrientes importantes para o organismo”, conta o nutricionista Waldemar Rinaldi, da rede Natue. Há indícios de que esse combo turbina a nossa vitalidade. Para Carla, isso pode ajudar a justificar o elo entre a raiz e a manutenção do desejo sexual.

O professor Março só chama a atenção para um contratempo: a possibilidade de adulteração. “Durante pesquisas, suspeitamos da presença de farelo de arroz misturado ao produto”, informa. Infelizmente, é bem difícil escapar desse tipo de fraude. “Mesmo assim, sempre que houver um pouco de maca no pacote, algum benefício você terá”, tranquiliza o pesquisador. Aliás, há muito mais sobre a maca que deve vir à tona. Como um verdadeiro tesouro, ela deixou pistas de seus feitos ao longo da história – agora cabe à ciência desvendá-los.